Mais um passo, Ana, só mais um passo, depois mais outro e depois mais uns mil. A cada passo que eu dava eu gemia de dor. Não achava que existisse algo mais sólido que o chão mas meu par de botas me provaram errada. Não que fosse um par de botas extremamente desconfortável, desses que cortam os dedinhos e dão bolhas; o problema é que essas botas não são exatamente sapatos de caminhar, correr, pular e escalar montanhas e eu calçara as botas há quatro horas e caminhava non-stop e rápido pela última hora.
A última hora fora uma piada de mal gosto. Eu e meu namorado, Clément, estávamos tentando encontrar um amigo no centro da cidade. Nico, nosso amigo, além de não conhecer a cidade e não saber das as informações corretas para podermos encontrá-lo, estava a) podre de bêbado b) sem conseguir pronunciar os nomes das ruas c) pedindo desculpas o tempo todo d) SE MOVENDO. Eu estava puta da vida porque se você tá podre de bêbado e quer encontrar seus amigos e consegue dizer para eles por telefone que está na praça tal e seus amigos sabem onde fica e estão perto (depois de terem andando pra caralho pra chegar até o bairro), você espera na praça. Mas não.
O tempo todo o telefone do Clément tocava e eu o ouvia perguntando em francês "mas vocês estão onde? indo pra onde? você sabe me dizer o nome da rua? tounette? fournette? journette? xounette?" e por aí vai. Clément não é a pessoa mais paciente do mundo, mas ele estava lidando bem com a situação. Eu queria gritar de frustração e pedir pra ir embora, mas eu achava que o Clément queria mesmo encontrar o Nico, afinal, já andamos tanto, eu não via ele já fazia dois anos, poderia ser legal, não custava nada tentar mais um pouco, o metrô já havia parado de funcionar então não tinha motivos para ter pressa e blá blá blá.
Depois de mais uma ligação e perceber que o Clément falava com pessoas diferentes porque um estava mais bêbado que o outro para explicar onde eles estavam, apesar do meu mau francês percebi que o ele combinava com uma menina na outra linha que eles esperariam nós chegarmos na rua X para então ir procurar um bar. Finalmente. Lá vamos nós e mais uma epopéia se inicia. Procuramos um mapa, pedimos informações, andamos e chegamos à rua correta. E nada deles lá. Clément liga para o número do Nico e fala com outra menina, também bêbada, e eles dão o nome de uma rua pela qual eles estão passando, pois estão se movendo. Cerro meus dentes e olho para o Clément com meu melhor olhar de que porra é essa. Assim que a ligação termina, eu digo que estou de saco cheio e quero voltar pra casa.
Fazia meia hora que estávamos caminhando desde que decidimos voltar para casa e não conseguíamos encontrar bicicletas. Pior, conseguíamos encontrar as bicicletas mas quando tentávamos aluga-las o sistema não reconhecia que elas estavam lá mesmo se elas claramente estavam. Íamos andando de estação em estação encontrando bicicleta nenhuma ou bicicletas invisíveis no sistema. Eu não aguentava mais caminhar e tínhamos ainda uns bons 30 minutos pela frente. Reclamei muito de dor nos pés e então fiquei em silêncio, por estar cansada, frustrada, com dor, com sono.
Meu namorado odeia minhas reclamações mas quando chega ao ponto de eu parar de reclamar por causa do problema pelo qual estava reclamando, ele fica preocupado e tenta resolver o problema, me distrair, me fazer rir ou, na pior das hipóteses, respirar sem fazer barulho pra não dar motivos pra eu me irritar.. Pediu pra eu esperar numa esquina enquanto ele corria até uma quadra fora do nosso caminho para ver se tinha alguma bicicleta disponível na estação que tinha lá, perguntou várias vezes se eu não queria que ele me carregasse um pouco e insistiu que ele conseguiria e que não tinha problema nenhum quando eu recusei agradecendo.
Cada passo é o inferno na terra mas de alguma maneira chegamos à estação de metrô Charpennes ilesos e batendo papo. Paramos no Mc Donald's, sento em uma das mesinhas com a sujeira que tenho certeza que foram jovens bêbados que fizeram enquanto ele fica na fila atrás dos bêbados esperando para pedir dois hambúgers numa madrugada fria de um sábado a noite em dezembro. Viro e olho pra ele, que eu conheço tão bem e amo tanto e ele me manda um beijo.
Um cara mal encarado passa por mim e pergunta se eu tenho seda para fumar, não entendo o que ele fala mas percebo o que ele quer pelo movimento que ele faz com as mãos, como se estivesse bolando um baseado. Digo que não, peço desculpas e logo depois o Clément senta do meu lado com o pacotinho do Mc Donald's. Abro, pego meu hamburger e começo a comer mais rápido que um mendigo esfomeado faria.
- Muito obrigada pelo hamburger, meu herói - digo com a boca cheia.
- De nada, ele responde rindo.
Comemos e tentamos pegar bicicletas novamente, mesmo estando perto de casa. Na primeira estação pegamos uma bicicleta mas o pneu está muito vazio e não seria possível andar com ela, vamos até a segunda levando a bicicleta, devolvemos, pegamos outra, notamos que não tem um dos pedais, devolvemos e na hora de pegar outra o ticket que acabamos de comprar não funciona. É a quinta, talvez sexta estação de bicicleta que tentamos, a noite nunca havia sido tão longa, estamos cansados, com sono, com dor nas pernas e - principalmente, oh deus - nos pés e a porra do ticket não funciona. O Clément tenta mais uma vez, com o pulso cerrado e mais uma vez o monitor nos acusa, ri de nós, se diverte às nossas custas.
O Clément grita, amassa o ticket, dá dois socos no monitor e um chute no pneu de uma das bicicletas.
Ele não é do tipo violento, mas às vezes se irrita com alguma coisa - a internet falhando quando ele tá tentando assistir ao jogo dele pela internet, por exemplo - e acaba fazendo alguma coisa não inteligente para extravasar a raiva - pegar uma cadeira e jogar na parede, por exemplo. Quando isso acontece eu fico meio apreensiva, sem saber o que fazer. Mas geralmente me dá uma vontade incontrolável de rir, o que acaba piorando a situação.
- Esses filhos da puta! A gente paga por um serviço e acaba nem conseguido a merda pela qual a gente acabou de pagar. Será que não dá pra fazerem uma coisa direito?! - ele pergunta não gritando mas também não falando com seu tom normal, sem raiva. Ele está claramente puto e de alguma forma é engraçado e sexy. Me da vontade de rir e abraça-lo falando tudo bem, tudo bem, já passou.
Após comprar outro ticket podemos finalmente pegar uma bicicleta e voltamos pra casa, eu andando de bicicleta e ele andando. Por uma ação dos anjos aos acharem que já haviamos tomado no cu o suficiente naquela noite, havia um lugar para devolver a bicicleta na estação de velo-v. Pelo menos isso, pensamos os dois. Se não houvesse lugar naquela estação teríamos que andar até outra, nos distanciando de casa e talvez não tivesse lugar nessa outra estação também e eu não queria nem pensar nisso e já que encontramos lugar na estação na esquina de casa, graças a deus eu não precisava.