segunda-feira, 15 de maio de 2017

Nós estávamos sentados na praia, estava escuro, ventava muito e eu sentia como se fossemos as unicas pessoas no mundo. Bebi mais um gole de cerveja enquanto você tentava acender o baseado, e eu ria das suas tentativas falhas. Tentei acender também, até meu dedo doer por causa do atrito com o isqueiro. Você enfiou seu dedo na boa e tirou como meus irmãos faziam quando éramos crianças para saber em que direção estava o vento, para poder soltar pipa. Viramos de costas para o vento e fumamos, conversando sobre qualquer besteira, como a gente sempre faz. Pensei em como é bom ter você do meu lado, ser sua amiga, porque posso ser quem realmente sou quando estou com você. Eu posso ser odiosa ou adorável, contanto que essa seja eu, e você me aceita, porque eu faço parte da sua vida, assim como você faz parte da minha. Ventava muito, e meus cabelos voavam para todos os lados. Nos beijávamos, e quase engolíamos meus cabelos, e ríamos. Não lembro sobre o que conversamos nesse momento, mas tenho certeza de que eu não conversaria do mesmo jeito ou sobre a mesma coisa com mais ninguém. Me lembrei das vezes em que estive ali sozinha ou com outras pessoas, antes de te conhecer e depois de ter te conhecido, enquanto não nos conhecíamos tão bem. Lembro de uma noite que a aula estava chata demais pra suportar, ou talvez fosse eu que já estivesse de saco cheio e completamente saturada com a minha vida do jeito que ela estava, que tive que sair da sala de aula só pra não ter um ataque de desespero. Saí da sala com as minhas coisas, e devem ter achado que eu tinha algo pra fazer, ou alguém pra ver, mas na verdade eu só precisava sair dali, de mim, e fui dar uma volta. Sair da sala é algo fácil e possível, mas eu precisava sair de toda a minha existência, porque eu sentia que tudo estava errado. Andei por ruas que não conhecia, li um pouco e acabei na praia. Tirei as sapatilhas e sentei olhando o mar. Naquela noite eu só pensei em solidão e dor. Mas com você, eu só pensava em um futuro bom.

2011


Janeiro, sorrio numa barca em alto mar voltando de Superagui cantarolando Novos Baianos.
Fevereiro, choro mandando mensagem pra Carlota porque nada em 2010 foi como eu esperava e enquanto todo mundo estava com o futuro garantido eu teria que prestar vestibular. De novo. 
Março, percebo que não tenho trabalho, namorado, dinheiro e não faço faculdade como a maioria das pessoas da minha idade. Completo 19 anos. Decido tirar a habilitação. Faço minha primeira tatuagem.
Abril, faço minha inscrição no vestibular da Universidade Federal do Paraná para o curso de Serviço Social e decido que vou estudar. Não estudo.
Maio, faço a prova do vestibular e tiro nota inferior à do ano passado. Choro porque acredito que não vou passar.
Junho, sou convocada para a segunda fase e choro de alívio.  Faço a prova com 5 redações e choro porque só escrevi besteira.
Julho, o resultado do vestibular é divulgado e choro de alívio por ter passado. Mas fiquei feliz sozinha. Ninguém compartilha esse momento comigo. Meu irmãozinho completa 2 aninhos.
Agosto, começam as aulas. Acredito que minha vida vai melhorar e tudo será um mar de rosas. Greve na universidade. Pessoas ignorantes recebendo aplausos. Universitários exclamando que se os técnicos estão com problemas o problema é deles e que querem aula. 
Setembro, viajo com a universidade para Porto Alegre e conheço a Umáyra. Decido que um dia irei morar lá. Percebo que ser feliz ou não é só uma questão de onde estou e com quem. Fui feliz lá. (Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você.)
Outubro, passo no exame prático de moto e me sinto aliviada. Faço algumas amizades. Finalmente aprendo a jogar sinuca. 
Novembro, choro de desespero porque o ano o ano está acabando, estou indo mal na universidade, não tenho dinheiro, não tenho trabalho, não tenho namorado, o exame prático de carro é amanhã e não lembro como faz baliza, não li os livros que queria, não assisti todos os filmes que queria, fui pouco ao teatro, viajei de menos, reclamei demais e não tem suco na geladeira. 
Dezembro, sorrio numa barca em alto mar indo para Superagui cantarolando uma música agradável. Pouso para uma foto na praia. Fico bêbada quase todos os dias. Acordo ouvindo o canto dos pássaros. Sinto um aperto aqui dentro porque mais um ano vai embora e outro vem. Choro porque a Carlota vai embora, choro porque não fiz as coisas que deveria ter feito. Lembro que na mesma época disse na fogueira pro Dani que não consegui nada do que queria em 2010 e que o ano de nada me valeu e então ele disse que conquistei muitas coisas, mas não as que queria e que os planos sempre mudam. Desejo feliz 2012 para desconhecidos, deito na areia da praia, olho as estrelas e sinto como se meu peito fosse explodir de tanto amor. 


Te trouxe flores, mas você acha que elas não vão florescer como floresceram no ano passado, não é? Tudo mudou. Eu sou tão idiota. Não sei por que continuo tentando. Não sei se é por amor, medo de ficar sozinho ou apenas... por hábito. Isso é tão ridículo. Eu sou ridículo. Acho que tudo é ridículo. Mais nada faz sentido. Não sei se um dia fez. De repente tudo ficou tão podre e sem sentido. Sabe, antes de você aparecer com seus cabelos castanhos ao vento, seu sorriso com os lábios cheios pintados com batom rosa que eu nunca tinha achado atraente mas em você ficava tão lindo, e seus dentes brancos, eu me sentia perdido. Mas nunca perdido assim. Antes eu tinha esperança de que as coisas mudariam, melhorariam, de que eu conseguiria encontrar meu caminho, encontrar um emprego que gosto, poder pagar o aluguel e comprar cadeiras de jardim pra colocar na sacada e até comprar umas flores de vez em quando sem sentir que eu estava num emprego de merda pra poder pagar continuar sobrevivendo uma vida de merda, sabe? Eu teria alguma felicidade. Encontraria alguém. As noites de segunda-feira seriam as noites de heineken e pizza, para podermos encontrar alguma felicidade mesmo no início da semana. Eu teria amigos melhores. Talvez eu até viajasse. E conseguisse transformar a massa mole em minha barriga num tanquinho. Sei lá, era uma vida sem nada especial, mas eu tinha esperança, objetivos, sonhos, se é que posso chamar finalmente ter um corpo digno de capa de revista um sonho. Era idiotice, é claro, mas eu estava bem na minha bolha. Eu tinha boas lembranças da minha infância. Me sentir seguro enquanto meu pai me carregava até minha cama depois de eu ficar até tarde assistindo TV e acabar pegando no sono... Minhas festas de aniversário... Os almoços que minha mãe fazia... O cheiro do cabelo dela... A felicidade quando ela chegava em casa do trabalho. Antes eu tinha todas essas lembranças boas e outras mais. Agora, depois de toda essa merda, só consigo pensar em como meus pais deviam estar se sentindo naquela época. Ser adulto é difícil. E eles eram pessoas que haviam acabado de deixar de serem crianças para cuidar de outra. Eles tinham que levantar cedo dia após dia para ir trabalhar em empregos de merda para termos um teto e comida na mesa. Ter pago por aquelas festas deve ter sido difícil. Minha mãe sempre queria uma máquina de lavar roupa boa. Mas ela sabia que não podia comprar. Mesmo assim, eles faziam o que podiam e até o que não podiam e me davam festas de aniversário. É algo doce, pensando nisso. É algo que devia me fazer sentir triste, mas também agradecido. Eu devia me sentir sortudo. Mas só fica essa tristeza no meu peito, sabe? Eu era mal educado, às vezes. Eu falei algumas coisas das quais não me orgulho. E isso me dá vontade de chorar. Você consegue imaginar? Meus pais abriram mão de tudo que tinham e podiam fazer pra me sustentar, aí eu cresço e respondo minha mãe porque ela não me deixou sair com meus colegas da escola porque era perigoso. Quando penso na minha vida, eu só vejo cinza, sinto um aperto no meu peito e lágrimas nos meus olhos. Quando eu te vi do lado de fora daquele bar, eu sabia que tinha que falar com você. Talvez aquela noite fosse a noite em que tudo fosse começar, quem sabe? A minha vida de verdade, minhas aventuras, minha felicidade, afinal. Seus cabelos estavam voando em volta da sua cabeça por causa do vento e você tentava acender um cigarro. E quando eu vi a estampa da sua camiseta, eu simplesmente soube que precisava falar com você. E quando eu fui perguntar se você tinha um cigarro, mesmo sem fumar, mesmo odiando cigarros, mesmo sabendo que todo mundo que fuma do lado de fora dos bares odeia quando alguém, principalmente um estranho, vai pedir um cigarro, eu senti seu perfume e logo pensei em flores. Flores lindas, coloridas, brancas, altas, baixas, muitas. E quando você sorriu, foi como se o mundo se abrisse pra mim e pela primeira vez eu pudesse ver como as coisas realmente eram. Eu sentia uma luz erradiando de você, luzes bonitas, que meio que diziam "ei, essa menina aqui é especial, você devia perguntar a ela o que ela pensa sobre estrelas, filosofia, religião, viagens, livros e coisas bonitas" e aquelas eram as minhas coisas favoritas para conversar a respeito. E quando você falou e eu ouvi seu sotaque e sua voz, eu fui enfentiçado. Eu queria saber na mesma hora de onde você vinha pra eu pegar um avião pra lá e deitar numa cama cheia de flores como você. Muita coisa aconteceu depois daquela noite, você sabe. Acho que foram os dois anos mais felizes da minha vida. Depois ficou só esse amargo, essa vida podre, essa nuvem preta que me segue onde quer que eu vá. Eu fico tentando entender, sabe? Não fez sentido nenhum. Por que aquela noite, por que ele, por que daquele jeito? Você me quebrou. Eu nunca mais vou funcionar direito... que nem as flores. Elas nunca mais vão florescer como floresciam antes. Eu vejo isso agora.

This too shall pass

 Eu nao sei sentir a tristeza. Quando ela chega, nem percebo que o que estou sentindo é tristeza. Quando tento identificar o que estou senti...