Eu sempre tive a necessidade de saber o quem eu sou, de me encaixar em algum lugar na minha cabeça. Não tinha nada mais aterrorizante que parar pra pensar nas coisas e não ter onde me encaixar, não ter um passado pra contar, uma pessoa pra ligar, um futuro pra sonhar. Eu precisava dessa segurança.
Há anos atrás, eu era a namorada de fulano. Eu estava com ele e me sentia bem. Quando acabou, comecei a me perguntar o quem eu era. Era Ana. Que Ana? A Ana que estuda em tal colégio. A Ana sem um plano pro futuro. A Ana sem emprego, sem colo, sem canudo, sem amigos, sem nada. O tempo passou e eu era a Ana lutando por um lugar no mundo. Depois fui a Ana fracassada. Então fui a Ana estudante de serviço social. Parti pra namorada de ciclano. Não queria mais aquela rotina pra mim, não sabia o que fazer com a minha vida, acho que nunca vou saber, então larguei tudo e minha nova rotina passou a ser fazer planos com e sobre ele, pensar nele, conversar com ele. Eram apenas sonhos.
Eu vivia no mundo da lua com um botão repeat no lugar do cérebro e fazia tudo em piloto automático Achava que era feliz. Talvez fosse. Agora vejo as coisas com olhos diferentes, mas continuo sem ter meu lugar no mundo, sou a Ana de nada.
A gente vive a vida sendo rasos, pensando em problemas inexistentes, atrás de maus orgasmos, desejando uma cerveja no fim da semana pra estar lá desejando estar em casa, e quando acontece alguma coisa que acorda a gente e faz a gente mergulhar e ver como os problemas são outros, que o que a gente ouviu foi mentira e que nada estava certo é que a gente vê como é fraco. Que a esperança vem só pra depois ir embora. Que não adianta se apaixonar e ficar feliz e sonhar com um futuro bom quando a outra pessoa é ainda mais rasa que você e tem o coração leviano. A gente não é nem enganado, a gente se engana. Então a gente vive dentro de uma bolha crente de que é aquilo o que a gente quer, que era aquilo o que a gente buscava e que com aquilo nós seremos felizes. Mas a bolha estoura e a verdade é jogada na cara da gente.
Nada faz sentido.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Os anos se passam e não deixam marcas. Me olho no espelho e me vejo diferente, mais velha. Mas com nada a acrescentar. Nenhuma história, nenhuma aventura. Não fiz nada do que queria fazer. Não planejei. Não tive coragem. Usei desculpas. Aprendi que o tempo passa e não espera ninguém, que fazer uma viagem vale mais que comprar roupas, que não tem nada de errado em usar calça jeans com chinelos e mostrar meus pés feios. Percebi que as pessoas mudam e os colegas fazem falta para tomar uma cerveja no fim do dia, mas que os amigos de verdade pra quem a gente corre moram do outro lado do mundo e é necessário sempre manter contato. Fiquei sabendo que a pessoa que mais pensou em mim e mais quis meu bem foi a que nunca me ligou. Finalmente aceitei que as coisas nunca serão como eu quero, que nunca vou ter a aparência que desejo e que quando eu finalmente conseguir subir aquela montanha para ter uma vista de tirar o ar vou reclamar de como estou cansada, ou que quando eu finalmente conseguir ir àquele show inesquecível vou reclamar dos meus pés doloridos, do calor e me preocupar com a passagem de volta pra casa. Porque geralmente tudo o que eu quero é estar de volta e me enfiar embaixo das cobertas. Acreditei que ia fazer tudo amanhã, semana que vem, mês que vem. E não fiz. E mais anos passaram. Acho que perdi minha chance. Mas outras virão. Vou tentar mudar. Juntar dinheiro. Aprender outros idiomas. Ver coisas bonitas que vão me deixar sem ar e trazer lágrimas aos meus olhos. Trabalhar. Fazer planos. Não adiar. Não arrumar desculpas. Ser a senhora do meu próprio destino. Começo amanhã. Ou semana que vem. Ou mês que vem. Sei lá.
Dentre tantas coisas que posso e quero fazer durante minha vida, todas as pessoas que conheci e esqueci, todos os sonhos que tive e todas as desculpas que usei para não realizá-los, todas as vezes que percebi que havia sentimentos ruins e injustos em mim e tentei mudar, está meu ódio por você. Se trata de um ódio irracional e que não consigo jogar fora, é como se ele estivesse enraizado em mim, é um ódio que eu sei que é errado, mas que não consigo deixar de sentir. Logo eu, que nunca odiei ninguém, nem quem me fez mal, nem quem mereceu. Eu apenas me preocupava com a minha vida e tentava fazer o melhor que eu podia fazer, então você apareceu e meu maxilar e meus punhos se fecharam. É um ódio que me faz querer te xingar sem nem saber muitas coisas sobre você, é um ódio que me faz desprezar todas as coisas que você faz, é um ódio que me faz desejar que você nunca saia do lugar. É um ódio terrível, que faz mal pra mim e não faz pra você, o que me faz ter ainda mais ódio de você. Ódio do que você faz, do que você escreve, de onde você vai, do chão que você pisa, dos seus sapatos, do que você estuda, das bocas que você beija, do seu cabelo, das suas roupas, do seu corpo, dos seus olhos, da sua casa, das suas lembranças, das suas unhas, dos seus pensamentos, do seu jeito de cantar. Tenho ódio das coisas que você tem e eu não tenho, ódio das coisas que você não tem e eu tenho. Ódio das lembranças e do vínculo que você tem com a pessoa que eu amo, ódio de ter havido sua presença em uma cama que eu deitei e ouvi alguém dizer que me amava. Ódio do seu jeito leviano, de como você ama alguém diferente a cada três meses, de como você consegue ser vazia. Ódio de mim por te odiar, por não conseguir esquecer.
A gente passa vida inteira guardando mágoas e antes que a gente perceba, acabamos colocando o objeto de ódio em um poço no nosso porão. Mas manter alguém preso em um poço imaginário no porão consome energia, tempo e quando a gente percebe a gente teve que parar de viver só pra fazer alguém que nos magoou infeliz. Eu tento tirar você do meu poço, mas não consigo. Eu tento cobrir o poço, encher ele com terra, jogar uma escada pra você sair e pedir pra você ficar longe de mim. Mas meu ódio não deixa. Eu vejo as coisas que você tem e eu não. As lembranças que você carrega. A mágoa que você implantou no meu peito, mesmo sem ter culpa. E decido te afogar no poço e deixar seu corpo lá pra sempre. Então vejo que se eu te afogar, estarei afogando a mim mesma. E tento te tirar do poço de novo.
Um dia eu consigo.
A gente passa vida inteira guardando mágoas e antes que a gente perceba, acabamos colocando o objeto de ódio em um poço no nosso porão. Mas manter alguém preso em um poço imaginário no porão consome energia, tempo e quando a gente percebe a gente teve que parar de viver só pra fazer alguém que nos magoou infeliz. Eu tento tirar você do meu poço, mas não consigo. Eu tento cobrir o poço, encher ele com terra, jogar uma escada pra você sair e pedir pra você ficar longe de mim. Mas meu ódio não deixa. Eu vejo as coisas que você tem e eu não. As lembranças que você carrega. A mágoa que você implantou no meu peito, mesmo sem ter culpa. E decido te afogar no poço e deixar seu corpo lá pra sempre. Então vejo que se eu te afogar, estarei afogando a mim mesma. E tento te tirar do poço de novo.
Um dia eu consigo.
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