Eu sempre soube que precisava fazer terapia. Sintomas de depressão me sondavam, meio às sombras. Mas eu achava que sabendo que esses monstros estavam por aí, eu saberia lidar com eles sozinha. Não da melhor maneira possível, é claro, mas de uma maneira que poderia me permitir continuar a minha vida da forma que eu estava acostumada a vivê-la. Dias ruins, dias bons, dias horríveis, dias ok, espiritualidade, negação e uma pitada de desespero.
O meu erro óbvio foi acreditar que a minha vida continuaria mais ou menos igual, com os mesmos níveis de dificuldade, mesmos tipos de problemas... É evidente que a gente para de ir pra escola e começa a trabalhar, sai da casa dos pais e começa a pagar as contas, mas as situações e os acontecimentos seriam mais ou menos os mesmos, certo? Então eu não precisaria aumentar meu repertório de respostas, melhorar meu auto-conhecimento, nem encontrar um momento de acolhimento no meu cotidiano.
A vida, claramente, tinha outros planos. Problemas familiares graves. Memórias da infância que voltaram como uma represa que quebrou e inundou a cidade sem aviso prévio. Uma pandemia sanitária mundial. Problemas de saúde. A morte de um ente querido. A culpa de sobrevivente. Não saber lidar com a vida após a morte. Mudar de país. Se sentir um cidadão de quinta categoria. Não se sentir capaz de aprender o que é necessário pra viver em um novo ambiente.
Resumindo, os níveis das dificuldades foram aumentando gradualmente e eu me vi, de repente, completamente ilhada por monstros. Eles se multiplicaram enquanto eu estava ocupada tentando sobreviver. Os novos monstros que passaram a me seguir mais de perto, que até mesmo subiam nas minhas costas e me afogavam com seu peso, eram muito maiores e aterrorizantes que os monstros que eu tinha antes. E o pior é que os monstros de antes continuavam lá.
Isso me faz perceber que existe um motivo claro para não podermos pular os níveis de Mario World. Como pretendemos matar o monstro 2 se o monstro 1 ainda não foi encarado?
Hoje me vejo olhando o monstro número 247 nos olhos. Ele é gigante, forte como um touro, e seu olhar me dá um frio na espinha. Ele me detesta e quer me ver derrotada. Eu sei que não conseguiria lutar contra ele, muito menos ter uma chance de ganhar essa luta. Eu preciso voltar aos primeiros monstros antes.
E é por isso que eu, finalmente, comecei terapia.