terça-feira, 12 de maio de 2020

Às vezes é difícil escolher uma dor para começar a pensar sobre o que fazer com ela.
Não sei se é porque todas doem, se nenhuma dói o suficiente, se tenho todas tão bem guardadas e organizadas que não quero mexer. Eu poderia tentar jogá-las, doá-las, deixá-las mais à vista para que eu possa vê-las com frequência e decidir o que fazer com elas. Deixá-las guardadas em uma mala vermelha com outras coisas velhas que não preciso não está me ajudando. Principalmente quando preciso alcançar algo que está atrás da mala, ou quando preciso mudar o lugar que chamo de casa.
As dores ocupam espaço, são pesadas e dificultam a visão de outras coisas que preciso encontrar. Sei que preciso lidar com elas. Mas o método da Marie Kondo não vai poder me ajudar, e não tenho ninguém que possa me guiar. Não sei quais dores devo lavar. Quais dores posso reciclar. Quais dores estou apta para usar e fazer arte. Quais dores preciso doar. Quais dores é imprescindível que eu jogue fora. Quais dores posso manter na mala até um momento mais oportuno.
Posso tentar arrumá-las sozinha, mas me conheço e sei que depois da primeira hora será muito difícil vencer a vontade de jogá-las de volta na mala e fechar a porta do armário. Sendo que agora a mala está guardadinha, ninguém sabe dela... Quem visita vê apenas um quarto arrumado e um armário com as portas fechadas. Devem imaginar que dentro apenas guardo roupas e sonhos, talvez algumas desilusões. Mas eu sei que as dores estão lá.
Sei que preciso arrumar minha bagunça. Talvez fosse bom guardar alguns planos na mala vermelha, para variar. Planos bons. Como conhecer a Grécia, fazer aulas de dança e aprender a fazer drinks. Mas antes preciso criar espaço. Se eu me livrasse das dores, a mala vermelha ficaria mais leve para carregar pelo mundo afora.
Vou pensar nisso quando a passagem estiver comprada. Por enquanto, é só eu deixar a porta do armário fechada.
Se ela soubesse que as coisas terminariam assim, teria feito algo diferente? Teria dito o que estava pensando, teria ido embora mais cedo ou ido dormir mais tarde? A vida é engraçada. Você pode pensar em tudo que fez de errado e pode acreditar que faria as coisas de forma diferente, mas a verdade é que quando se pensa no passado e nos problemas de forma leviana, é difícil considerar todos os pontos que precisam ser considerados. 
Ela poderia ter dito o que estava pensando naquela noite, mas estava exausta e com vontade de chorar. Poderia ter ido embora mais cedo, mas não conseguiu. Poderia ter ido dormir mais tarde, mas estava preocupada com a manhã seguinte. As confusões que ela sentia só ela sabia, mas agora, anos depois, enquanto pensava nessas situações, até mesmo ela esquecia. 
Melhor não mexer no passado. Não cutuca-lo ou culpa-lo. 
Não. É melhor entendê-lo, perdoá-lo, amá-lo. 
O que seria de nós sem nossos erros, sem os acontecimentos que nos trouxeram até aqui? 

This too shall pass

 Eu nao sei sentir a tristeza. Quando ela chega, nem percebo que o que estou sentindo é tristeza. Quando tento identificar o que estou senti...