segunda-feira, 29 de junho de 2020

Quando eu era criança, desejava crescer porque eu faria e teria todas as coisas que eu sempre quis, como num milagre. Aos 25 já estaria formada, casada, teria apartamento próprio, carro quitado e um passaporte cheio de carimbos. Eu teria os melhores amigos e não precisaria conviver com qualquer pessoa ou em qualquer ambiente tóxico. Era fácil me imaginar levemente mais velha com todos os sonhos realizados - com um probleminha aqui ou lá, para não parecer completamente irreal, sem precisar fazer nada do trabalho que aquela versão de mim mesma obviamente precisaria fazer para ir de onde eu estava até onde eu queria chegar. É claro que a vida não aconteceu dessa forma.
O que eu não sabia naquela época, e que só entendi recentemente, é que crescer não muda nada como num passe de mágica. Desde que me conhecia por gente eu tinha os mesmos problemas, as mesmas expectativas, as mesmas dificuldades e vivia os mesmos ciclos. A única coisa que mudava era a idade que eu tinha anualmente. A ironia do destino é que a idade não me mudava.
Quando entro no trem da memória e volto os anos, eu vejo que eu sempre quis ter mais foco. Mais confiança em mim mesma. Mais gosto pelo estudo. Mais persistência. Mais amigos. Mais amigos. Mais amor próprio. Mais auto controle. Mais tempo. Mais visão. Mas é fácil ver tudo isso do futuro, estando fora da situação. Assim como tenho certeza que os problemas que encontro hoje são difíceis pra eu lidar, mas a Ana daqui 2 anos saberia exatamente o que fazer. A vida é assim. Mas estou me adiantando, vamos voltar ao passado e ao presente.
Hoje e todos os outros dias da minha vida [até agora] me deparo com o mesmo dilema: É hoje que eu dou um passo pra me tornar a Ana do futuro, ou continuarei sendo a Ana do passado? 
Normalmente estou ocupada demais acordando cedo, tomando café da manhã, deixando a louça pra mais tarde, passeando com meu cachorro, me arrumando, indo para o trabalho, trabalhndo, sentindo vontade de chorar no banheiro, almoçando, lavando o pote da marmita, trabalhando mais um pouco, voltando pra casa, passando no mercado, perdendo tempo na fila, chegando em casa, passeando com o cachorro de novo, tomando banho, fazendo o jantar, jantando, lavando a louça, assistindo qualquer seriado e indo dormir. Digo a mim mesma que pensarei sobre essa questão amanhã, ou em outra oportunidade. Talvez no fim de semana ou nas férias.
Eu me convencia de que se eu fosse uma dessas pessoas que não precisasse trabalhar, que tivesse tempo livre, que dorme o suficiente, que não precisa se preocupar com dinheiro, eu iria me desenvolver tanto, mas tanto, que iriam achar que eu já havia me tornado um ser iluminado que não atende mais por humano. Eu iria saber meditar. Iria fazer yoga. Cozinhar coisas saudáveis. Minha pia estaria sempre limpa. Iria ler 200 livros por ano. Criar um blog. Fazer amigos. Estar sempre bonita. Chegar e manter o meu peso ideal. Fazer trabalho voluntário. Finalmente descobrir o que nasci pra fazer. Aprender inglês, espanhol, francês, alemão, chinês, russo - fluentemente. Eu iria aprender a estudar! Me alongar. Me exercitar. Trabalhar em mim mesma. Vocês entendem. O que eu achava que iria conseguir fazer, quase que como num passe de mágica, era me desenvolver.
Eu honestamente não sei eu me contava essa mesma ladainha porque eu sabia que as chances de eu enriquecer e ter todo esse tempo livre nunca iria acontecer. Ou se eu realmente acreditava nessa realidade paralela, onde eu acordava todas as manhãs com meu cabelo perfeitamente escovado e uma mesa de café da manhã com waffles frescos me esperando, com morangos é claro. A questão é, eu me agarrava com unhas e dentes a essa bóia, essa ilusão, pois era a única coisa que eu tinha que impedia que eu me afogasse.
Até que por golpe de sorte ou de azar, eu perdi meu emprego e de repente tinha todo esse tempo livre que eu tanto precisava... A seguinte história conta um pouco sobre como foi essa fase da minha vida enquanto lidava com fantasmas do passado e a esperança do futuro, ainda tentando me segurar nas bóias que eram as certezas da minha vida até então, apenas para descobrir que esse tempo todo eu sabia nadar. 



This too shall pass

 Eu nao sei sentir a tristeza. Quando ela chega, nem percebo que o que estou sentindo é tristeza. Quando tento identificar o que estou senti...