Era uma dessas garotas que apesar de nunca se acharem boas o suficiente às vezes se julgavam melhores que as outras pessoas. Constantemente sentia-se inferior. Mas, de certa forma, superior. Mas não se tratava de pesos ou reais ou medidas ou peneiras. Só sabia que não era um quadrado. Andava pelas ruas sentindo-se satisfeita por não estar pensando nas mesmas coisas corriqueiras que as outras pessoas pensavam enquanto andavam pelas mesmas ruas. A tristeza, porém, sempre estava presente. Nunca seria como as outras pessoas. Fantasiava sobre como seria ser normal. Aceitar o que lhe é dado, nunca olhar para os lados, ter sonhos que coubessem no bolso. Sentia-se infeliz por constatar que nunca conseguiria ser completamente feliz, mas sentia-se feliz por ser capaz de fazer essa constatação embora não soubesse o que fazer com ela. Sonhava com grandes amores, grandes viagens, grandes realizações. Nada que mudasse a vida de muitas pessoas além de sua própria. Nas entrelinhas, entre uma cena e outra, estavam as Outras Pessoas. As pessoas que ela nunca saberia como se sentiriam. Mas que nunca conseguia esquecer. As pessoas que eram números ou meros figurantes. Ela própria fazia parte de números que eram somados sem sua permissão pois na vida não tinha peso nenhum. Também era figurante de outras histórias. Tantas histórias. Queria ouvi-las todas. Conhecer todas essas pessoas, todos os sonhos. Queria sentir todo o amor do mundo. Sonhava que ninguém nunca mais passaria fome, frio ou sede. Que ninguém jamais ficasse carente de amor. Que as pessoas ajudassem umas às outras. Mas tinha tanto ódio no mundo... Ah, o mundo. Ninguém sabe como começou, ninguém entende como tudo chegou à esse ponto e nem o que acontecerá em seguida. Ela queria entender... às vezes. Porque em outras, ela só queria ser feliz. Era uma dessas garotas que só queria ser feliz, sabe?