Eu me perdi.
Não falo especificamente da minha profissão, do meu relacionamento amoroso, do caminho que uso para ir ao trabalho. Não. Falo de mim.
Realmente não sei como aconteceu. Eu juro que estava bem aqui. Acordei numa segunda-feira qualquer, coloquei uma máscara neutra no rosto e fui pro ponto de ônibus. Acho que era fevereiro de 2019. De repente, acordei com dor de cabeça e dor nas costas e já era novembro. Com o corpo pesado e cansado, a saúde ruim, o psicológico em frangalhos, a conta bancária no negativo. O que diabos aconteceu?
Eu tenho lembranças dos meses que estive perdida. Aparentemente eu estava no automático, indo trabalhar, pagando minhas contas, assistindo Netflix, comendo pizza. Quem via de longe poderia achar que eu estava consciente o tempo todo, mas eu não estava. As lembranças vêm até mim como se tivessem acontecido com outra pessoa. Mas eu sei que era eu.
Deixei pessoas me tratarem mal. Não cuidei de mim mesma. Não me amei. E me perdi.
2019 foi um ano tão difícil. Normalmente eu completaria "difícil" com "necessário". "Foi difícil, mas necessário!"... Mas não sei se foi necessário mesmo. Estou acostumada a ser a pessoa mais perdida do planeta, e depois, e um momento de lucidez, de positividade, ver todas as falhas como lições necessárias, experiências que me fizeram crescer, me encontrar.
Só que eu não me sinto crescida. Não me sinto encontrada. Só me sinto mais perdida.
Claro que aprendi a ser mais forte. Quando alguém te dá pedradas, eventualmente elas não doem tanto. Sua pele endurece, seu psicológico encontra uma maneira - saudável ou não - de lidar com a situação e você fica mais forte. Mas não seria melhor receber carinhos? Chocolates? Palavras de amor? Apoio?
2019 foi um ano tão difícil. Não sei se foi necessário. Mas passou. Querendo ou não, aprendi muito, apanhei muito, sofri muito. Nas próximas surras talvez eu me saia um pouco melhor, agora que tenho experiência.
Mas o que eu quero mesmo, de verdade, do fundo do meu coração, é me encontrar.
*
Não sei pra onde fui, quando me perdi. Mas sei que o meu corpo continuou aqui. Tarefa após tarefa, na dureza, sem flexibilidade, sem compaixão, sem aceitação. Ele caminhou, correu, subiu e desceu escadas, se segurou, segurou a barra. Ele também cresceu e ficou mais pesado.
Nos meus breves momentos de consciência, quando me olhava no espelho ou percebia que o uniforme do trabalho estava me apertando, eu culpava o meu corpo. Queria que ele fosse mais forte, mais bonito, mais adequado. Ele estava segurando toda a barra pra mim enquanto eu estava fora, perdida, e quando eu voltava não tinha uma palavra de amor e de aceitação pra ele.
Quando tinha um momento de lucidez dentro do momento de lucidez, me julgava por ser tão fraca e idiota. Se eu fosse voltar só para falar mal do único instrumento que segurava a barra pra mim, era melhor eu nem voltar!
*
Se o meu corpo pudesse falar, o que diria?
Eu adoro água. Eu sou feito de água, né? E preciso de água de forma frequente e em quantidade considerável. A Ana não me dá todas as coisas que preciso, e não me aprecia por tudo que eu faço por ela, mas pelo menos ela me dá água. Às vezes minha boca fica meio seca e ela demora um pouco pra atender a minha necessidade, mas eu entendo que ela vai me dar a água que preciso todos os dias.
Eu também adoro ar. Poucas coisas me fazem tão bem quanto uma longa e profunda inspiração de ar. A Ana sabe disso, e aproveita junto comigo quando faz um esforço, mas no dia a dia ela esquece. As respirações que ela me dá são extremamente curtas e ansiosas.
Tudo bem. Não, na verdade não está tudo bem, mas eu tive que aprender a trabalhar e a funcionar mesmo sem ter as coisas que preciso pra ficar bem. Eu não tenho ideia do que está acontecendo na cabeça da Ana, mas os problemas dela fazem com que o meu bem estar não seja uma prioridade.
Mesmo assim, ela me dá comida e me leva ao banheiro em absolutamente todas as vezes que preciso. Ela também me mantém limpo. Acho que não posso reclamar muito, porque conheço alguns corpos que não têm tanta sorte. Mas ao mesmo tempo, eu preciso de mais do que ela me dá.
Eu preciso que a Ana me veja e me ame. Preciso que ela feche os olhos, faça os pensamentos e os problemas saírem um pouco do campo de visão dela, e sinta o trabalho que faço automaticamente pra ela. Por ela. O ar entrando e saindo, as células se multiplicando, o coração batendo.
Eu sou uma orquestra ambulante, que só tem amor, que só quer amor e cuidado, e a Ana não vê.
Ana. Por favor. Feche os olhos e sinta.
Eu sei que você queria que eu fosse diferente, mas dessa vez, só dessa vez, você pode só fechar os olhos... me sentir.. me aceitar... me acolher... e me amar?